Há uma ideia que se tem veiculado nas comunidades que procuram elevada performance ou saúde que sujeitar o corpo a stress é benéfico. Um mantra frequentemente proferido é ‘O corpo tem de ser castigado para ficar forte e resiliente’, que se celebrizou na língua inglesa através da expressão: ‘No pain, no gain’. É verdade!

Sem expor o corpo a um estímulo que o obrigue a mudar, não é possível fortalecê-lo. E para isso há que suportar um certo desconforto, não há volta a dar. Mas também é verdade que se o stress for excessivo os efeitos podem mesmo ser prejudiciais a curto e longo prazo. Quem não reconhece a consequência negativa do stress acumulado ao longo do tempo?

Como estabelecer este limite, entre o que é benéfico e prejudicial? Infelizmente não há uma fórmula mágica, mesmo recorrendo a tecnologia. E também a nossa perceção, sensibilidade, por melhor que conheçamos o corpo, nos pode dar essa garantia. O melhor que podemos fazer é combinar os meios ao dispor, guiados por um princípio: o segredo da resiliência é expor o corpo a uma certa dose de stress moderado de forma aguda, sem desequilibrar o sistema nervoso a longo prazo. Este princípio, que reque r percepção e medição, deve ser utilizado da seguinte forma. Aplicar um estímulo que cause algum desconforto na percepção da pessoa, que seja desafiante, que se faça com algum sacrifício e dificuldade. Este estímulo deve ter uma duração relativamente curta, ou seja, aguda, até ao ponto em que os níveis de ansiedade (sensação de algum desespero, impulso de abandono e desistência) começam a ficar intensos e a pessoa começa claramente a ter alguma dificuldade em se auto-controlar. Diariamente ir monitorizando a variabilidade da frequência cardíaca para monitorizar o sistema nervoso autónomo, depois de se conhecer bem os valores de base.

Vamos agora aos meios mais objetivos. Dependendo do estímulo, há ferramentas específicas para cada um, sendo que algumas são gerais. Variam também em relação à sua medição no momento ou ao fim de semanas ou meses. Incluem métodos como medição da glicémia sanguínea, avaliação do estado do sistema nervoso autónomo, análises clínicas ou avaliação cardíaca.

Para se tornar mais concreto vamos dar alguns exemplos de stress moderado e aplicados de forma aguda terem demonstrado aumentar a resiliência física ou mental: jejum, exposição ao frio ou calor intenso, apneias respiratórias, movimentação de pesos elevados e ações físicas intensas que produzam picos de aceleração cardíaca.

O motivo porque a percepção (dados subjetivos) e a tecnologia (dados objetivos), isoladamente, são insuficientes para aferir o benefício da exposição ao stress moderado e agudo, é porque cada um deles conta apenas uma parte da história. Por exemplo, a pessoa pode ter o organismo em sobrecarga levando a danos de que não se apercebe (níveis elevados de cortisol, sistema nervoso simpático hiperativo, glicémia elevada, etc.), mas sentir-se extraordinariamente bem, até com energia e vitalidade. Noutra comunicação iremos explicar como isto pode ocorrer. Mas também pode acontecer, a pessoa melhorar nos parâmetros objetivos para níveis de otimização e não sentir quaisquer ganhos.

Há estímulos que durante a fase aguda de exposição ao stress provocam alterações no organismo que revelam sobrecarga a curto prazo, mas que a longo prazo se revelam extremamente benéficos. Isto acontece através de um mecanismo simples de explicar. Sempre que o corpo se vê confrontado com alguma agressão, inicia um conjunto de processos para resistir e sobreviver. E também recebe a indicação que tem de se adaptar, para ser mais fácil lidar com ela da próxima vez que a encontrar. Por isso, é tão importante que os próprios estímulos variem, na modalidade, quantidade ou intensidade. Até porque cada um oferece um benefício próprio e distinto dos demais.

Convém, no entanto, relembrar que se a agressão for excessiva, em intensidade ou duração, ou seja, exceder a capacidade do indivíduo lidar com ela e adaptar-se, outros mecanismos distintos entram em ação e a reação do organismo é totalmente diferente. É por isso que entre a classe de estímulos com potencial benéfico, não há nenhum que seja inerentemente positivo ou negativo, não é um valor absoluto, de sim ou não. Banho de imersão em água gelada à mesma temperatura, para uma pessoa pode ser fantástico, mas para outra devastador. Ou até para a mesma pessoa num dia, num certo horário, ser benéfico e noutra altura não.

A orientação a tirar para todos os que pretendem fazer uso das capacidades extraordinárias do ser humano, quando sujeito a stress, é entender e aprimorar a aplicação do princípio indicado acima e aprender a utilizar métodos objetivos de análise da fisiologia do corpo, como a variabilidade da frequência cardíaca, que nos dá uma medida excelente, prática e acessível em tempo real de como está a funcionar o sistema nervoso. É importante encontrar a fronteira entre os benefícios e os danos para tirar partido dos diversos estímulos que a natureza nos proporciona.